Entenda o colapso de geleira que provocou enchentes devastadoras no Nepal e Tibete

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Derrocada de geleira no Parque Nacional de Langtang causa tragédia (Foto: Instagram)

O rompimento repentino de uma grande geleira no Parque Nacional de Langtang, no Nepal, originou uma onda de água e detritos que se espalhou pelos vales do país e alcançou o Tibete, deixando ao menos 584 mortos e cerca de 1,9 mil desaparecidos, entre eles turistas estrangeiros.

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De acordo com o Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS), o colapso ocorreu em uma encosta glacial próxima à fronteira chinesa, a uma altitude de até 7.200 metros, em uma das áreas que concentram as cem montanhas mais altas do planeta.

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O impacto liberou uma energia equivalente a um terremoto de magnitude 5,2, e o fluxo de lama, gelo e rochas viajou quase 100 quilômetros pelos rios Trishuli e Bhote Koshi até o porto de Gyirong, na China. Cerca de três horas depois, ocorreu um tremor secundário estimado em magnitude 4,2. Relatórios iniciais apontam que rodovias estratégicas, construções e infraestruturas essenciais ficaram soterradas, agravando o cenário de destruição. A região, composta por rochas metamórficas como gnaisses, quartzitos e mármores, mostrou-se especialmente vulnerável ao colapso das camadas de gelo.

Em 2015, esse mesmo maciço já havia registrado uma grande avalanche de detritos provocada por um terremoto de magnitude 7,8, soterrando uma vila a partir de 5 mil metros de altitude e provocando mais de 200 mortes. Agora, imagens obtidas pela Associated Press através dos geomorfólogos Kristen Cook e Dan Shugar revelaram que não foi apenas a geleira que cedeu: uma porção significativa da rocha matriz da encosta também deslizou, arrastando volumes imensos de gelo e pedregulhos pelo vale.

Com o derretimento progressivo do bloco de gelo durante o deslocamento, a mistura de água e lama atingiu vários metros de altura, provocando o transbordamento do rio Trishuli e ampliando sua calha. Nos trechos de Kolpurtar, Betrawati e Syapru Besi, imagens de satélite mostram margens antes estreitas agora invadidas por detritos, e a coloração da água passou do verde para um marrom intenso devido ao grande volume de sedimentos levados pela correnteza. Comunidades inteiras foram soterradas, prédios foram arrastados e trilhas turísticas ficaram intransitáveis.

Para o geógrafo Alton Byers, da Universidade do Colorado em Boulder, a tragédia evidencia o papel das mudanças climáticas no enfraquecimento do permafrost, que atua como “argamassa” natural em altas altitudes. O aquecimento global tende a derreter geleiras e solos congelados, tornando as encostas mais suscetíveis a deslizamentos em escalas cada vez maiores. Embora Cook e Shugar digam não haver como vincular diretamente este colapso ao aquecimento, ambos alertam que eventos desse tipo devem se repetir com maior frequência à medida que o clima se aquece.