
Professora orienta alunos em laboratório de informática na rede estadual de São Paulo, onde plataformas digitais e IA já fazem parte da rotina escolar (Foto: Instagram)
A incorporação da inteligência artificial (IA) deixou de ser apenas uma resposta emergencial ao ensino remoto durante a pandemia de covid-19 e se tornou parte permanente da política educacional paulista. Na rede estadual de São Paulo, as plataformas digitais vêm transformando a rotina de professores e alunos, suscitando questões sobre os limites do uso de tecnologia no processo de ensino-aprendizagem.
Em artigo publicado na revista Bakhtiniana, as pesquisadoras Ana Elisa Sobral Caetano da Silva Ferreira e Marina Delege analisam a trajetória da IA na educação estadual. Elas apontam que a criação do Centro de Mídias da Educação de São Paulo (CMSP), em 2020, inaugurou um movimento de “plataformização” do ensino público. Mesmo após o retorno das aulas presenciais, plataformas e ferramentas digitais passaram a se integrar de forma crescente à rede, com intensificação visível a partir de 2023.
Hoje, as escolas contam com um conjunto de soluções como Diário Digital, Tarefas SP, Slides, Redação SP, Sala de Aula Virtual, Leia SP, Alura, Khan Academy e outras. Essas aplicações são monitoradas pelo painel Super BI – Escola Total, que consolida indicadores de frequência, participação em avaliações e uso das plataformas. Segundo as autoras, esse modelo traz maior vigilância sobre o trabalho docente.
Para Ana Elisa, não há oposição ao uso de tecnologia, mas sim à centralidade conferida às plataformas sem base pedagógica clara. “A ferramenta deve servir ao pedagógico, e não o pedagógico se estruturar apenas pela plataforma”, ressalta a pesquisadora, que estuda tecnologia e educação desde 2016.
Uma das consequências desse processo é o risco de padronização das aulas. Cada turma reúne alunos com níveis de conhecimento, dificuldades e contextos sociais distintos, e cabe ao professor adaptar o conteúdo. “O docente é um curador: entende as necessidades de cada comunidade de aprendizagem e ajusta o material conforme a realidade dos estudantes”, afirma Ana Elisa.
Em 2024, a rede estadual passou a usar o Chat GPT para aprimorar aulas digitais já elaboradas por professores. Embora a Secretaria de Educação afirme que a IA não substituirá o docente e funciona apenas como etapa de atualização, o artigo questiona a autoria dos materiais e observa lacunas na legislação sobre direitos autorais de profissionais responsáveis pelos conteúdos.
A prevalência de telas na formação de alunos também chama atenção. Para Ana Elisa, a escola é um espaço de convivência e desenvolvimento social, que não se reduz à transmissão de conteúdos. O aumento do ensino mediado por plataformas pode afetar a interação e o pensamento crítico dos estudantes, tornando-os “treinados para pensar por meio das telas”.
Entre as propostas para reverter esse cenário, está o Projeto de Lei nº 305/2024, apresentado na Câmara em maio de 2024, que visa proibir o uso de conteúdos gerados por plataformas digitais ou IA como referência exclusiva em materiais didáticos. As autoras defendem ainda políticas que valorizem a autoria e a autonomia dos professores, limitem o uso intensivo de telas, revisem sistemas de monitoramento e regulem eticamente a IA no ambiente escolar.






