
A destituição de Santiago Peña no Paraguai expõe uma crise ligada à falência do Ueno Bank. Especialistas avaliam que o episódio não deve mudar de imediato a orientação política do país nem provocar um efeito dominó na direita sul-americana. (Foto: Instagram)
A destituição de Santiago Peña, no Paraguai, representa um revés para Donald Trump, mas não deve provocar uma mudança imediata na orientação política do país nem abalar a direita sul-americana, avaliam especialistas. Após um processo de impeachment no Congresso, Peña foi detido em casa a pedido do Ministério Público, em meio a investigações relacionadas ao Ueno Bank, que faliu por falta de solvência e teve as contas congeladas, afetando milhões de pessoas. O vice-presidente Pedro Alliana, também do Partido Colorado, assumiu o cargo.
Eleito em abril de 2023, Peña foi o primeiro presidente da nova onda de líderes de direita alinhados às políticas dos Estados Unidos na região. Na sequência, venceram eleições Javier Milei, na Argentina; Daniel Noboa, no Equador; Rodrigo Paz, na Bolívia; José Antonio Kast, no Chile; Keiko Fujimori, no Peru; e Abelardo de la Espriella, na Colômbia. A reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no Brasil foi apontada como uma interrupção dessa tendência.
O Partido Colorado, que governa o Paraguai há décadas, mantém uma política externa historicamente próxima de Washington, independentemente de quem ocupe o Palácio de Lopez, em Assunção. Segundo Regiane Bressan, especialista em América Latina e professora da Unifesp, essa orientação se baseia no alinhamento com os Estados Unidos em segurança hemisférica, na cooperação com Israel e na manutenção de laços diplomáticos com Taiwan. O Paraguai é o único país sul-americano a reconhecer Taipei. Apenas 12 países reconhecem Taiwan como soberano, posição contrária à da China, que considera a ilha uma província separatista.
Durante o governo Peña, as relações entre os Estados Unidos e o Paraguai se estreitaram. Em 2026, ele sancionou o Acordo do Estatuto das Forças (SOFA), que regulamenta a presença temporária de pessoal civil e militar do Pentágono e de empresas americanas no país para atividades como entrada de veículos, treinamento e exercícios militares. O texto prevê “privilégios, isenções e imunidades” para funcionários do Departamento de Defesa e integrantes das Forças Armadas dos Estados Unidos. Embora a oposição tenha criticado o acordo, Alexandre Coelho, professor da FESPSP, avalia que contestá-lo não significa haver força política para alterá-lo. O Paraguai também integra o Escudo das Américas, iniciativa de segurança regional lançada por Trump contra o narcotráfico e o crime transnacional.
Para Coelho, a crise acende um alerta, mas não indica um efeito dominó contra a direita regional: as causas seriam ligadas à política paraguaia, incluindo as relações de Peña com o grupo associado ao Ueno, suspeitas sobre a fiscalização bancária e o abandono do presidente pelo Partido Colorado. Bressan também afirma que o episódio não representa esgotamento ideológico da direita pró-EUA: a queda não foi desencadeada por debates sobre privatizações, costumes ou política externa, mas pela falência do banco. Ainda assim, Coelho ressalta que a proximidade com Trump não protege líderes da perda de confiança popular e de sua própria base.
A crise também envolve Horácio Cartes, presidente entre 2013 e 2018 e padrinho político de Peña. Alvo de sanções dos Estados Unidos, Cartes tenta revertê-las por meio de sua aproximação com Trump. Em 2022, durante o governo de Joe Biden, o Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros do Departamento do Tesouro classificou Cartes como “significativamente corrupto” e aplicou sanções sob a Lei Magnitsky, uma medida severa usada contra estrangeiros acusados de graves violações de direitos humanos ou corrupção. Cartes continua liderando o Partido Colorado e apoiou o afastamento de Peña. O presidente chegou a apresentar uma carta de renúncia, mas o Congresso optou pelo impeachment.
Bressan afirma que Peña, economista formado no exterior e ex-integrante do Banco Central e do Fundo Monetário Internacional (FMI), entrou tardiamente no partido e serviu como vitrine moderna para o cartismo. Sem uma base parlamentar própria, tornou-se um risco para os aliados quando a falência do Ueno deixou milhões de paraguaios sem acesso ao dinheiro. Alliana, considerado próximo da cúpula partidária, comandou o Partido Colorado entre 2016 e 2023. Para a especialista, a legenda assegurou sua permanência no poder até pelo menos 2028, quando ocorrerá a próxima eleição.
A oposição poderá tentar aproveitar a crise, com Miguel Prieto, do Yo Creo, e Ricardo Estigarribia, do Partido Liberal, entre os nomes cotados para a disputa presidencial de 2028. Coelho pondera, porém, que a indignação não se transforma automaticamente em votos: a oposição precisa demonstrar capacidade de governar, ou o Partido Colorado poderá substituir o presidente e preservar o poder.






