Nonato Lima conecta a sanfona nordestina à tradição europeia do acordeão

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Nonato Lima no auge da sua turnê europeia, emocionando plateias com seu acordeão (Foto: Instagram)

Depois de concluir uma turnê europeia com 17 apresentações, o acordeonista cearense Nonato Lima faz um balanço de sua carreira internacional e reafirma seu propósito de difundir a música brasileira no exterior. Além dos espetáculos, ele promoveu workshops em diferentes cidades, estreitando laços com músicos locais. O ponto alto da jornada, no entanto, foi fortalecer a amizade com Richard Galliano, ícone mundial do acordeão que influenciou profundamente sua formação.

Nascido em uma família de sanfoneiros no Ceará, Nonato começou a tocar aos sete anos e logo dividiu o palco com o pai em pequenas festas regionais. “A sanfona virou amor à primeira vista. Nunca mais me separei dela. Ela já é um pedaço de mim”, lembra o músico. O que começou como diversão infantil transformou-se numa vocação: ainda criança, ele passou a se apresentar profissionalmente, desenvolvendo técnica apurada e sensibilidade rítmica.

Ao longo de três décadas, o instrumentista colaborou com nomes consagrados da música brasileira, como Dominguinhos, Fagner, Ivete Sangalo, Yamandu Costa e Hamilton de Holanda. Sua capacidade de transitar entre o forró, o jazz, a música instrumental e o repertório erudito virou marca registrada. Segundo Nonato, foi essa versatilidade que despertou o interesse de plateias europeias, sempre curiosas para descobrir novas sonoridades do acordeão.

A inspiração para aproximar a sanfona nordestina do universo erudito e do jazz veio depois de uma indicação do sanfoneiro Zé do Norte, quando tinha 14 anos. Ao conhecer a obra de Galliano, ficou fascinado pela forma como o francês reinventava o instrumento. “Ele tem uma forma moderna do jeito francês de tocar. Isso me chamou muita atenção”, afirma. A partir daí, Nonato passou a estudar a discografia de Galliano e a incorporar elementos da “New Musette” em seus arranjos.

Richard Galliano foi incentivado por Astor Piazzolla, nos anos 1980, a criar o movimento “New Musette”, que modernizou a tradição dos bailes populares franceses ao inserir influências contemporâneas e improvisação jazzística. A conexão entre essas tradições se revelou um terreno fértil para Nonato, que buscava expandir as fronteiras do forró sem perder sua identidade nordestina.

O encontro presencial entre os dois acordeonistas superou todas as expectativas. Após anos de troca nas redes sociais, eles se encontraram em um festival e chegaram a dividir o palco, gravando juntos a faixa “Fou Rire”. “Você está ao lado de mestres que sempre admirou. Foi a mesma emoção que senti quando toquei a primeira vez com Dominguinhos”, conta Nonato. Segundo ele, Galliano impressionou não só pelo virtuosismo, mas também pela generosidade. “Ele me tratou como um filho.”

Para Nonato Lima, o acordeão é um instrumento sem fronteiras, presente em diversas tradições musicais mundo afora. Durante a turnê, recebeu tanto brasileiros residentes na Europa quanto plateias locais encantadas com as variações rítmicas do Nordeste. “Em cada país existe uma linguagem própria para o acordeão. Quando apresento a música brasileira, as pessoas se surpreendem com as possibilidades do instrumento”, explica. Essa receptividade comprova que a sanfona continua a encontrar novos caminhos além de sua terra natal.