Melatonina: aliada inesperada na luta contra o glioblastoma, o câncer cerebral mais agressivo

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Sequência de imagens de ressonância magnética de um cérebro com glioblastoma (Foto: Instagram)

Pesquisas de laboratório em diferentes países indicam que a melatonina, conhecida como hormônio do sono, pode reforçar o efeito da quimioterapia contra o glioblastoma, o tumor cerebral mais letal. Estudos apontam que essa molécula interfere no metabolismo das células tumorais, facilitando a ação do tratamento convencional e potencialmente reduzindo os danos ao tecido nervoso. No entanto, as doses usadas nos experimentos são muito superiores às comercializadas e ainda não existem evidências sólidas em ensaios clínicos humanos. Por isso, a automedicação é desaconselhada enquanto não se confirmarem a segurança e a eficácia dessa combinação.

O glioblastoma é o tipo de câncer cerebral primário mais comum em adultos e um dos mais desafiadores de tratar. Em vez de formar uma massa bem delimitada, esse tumor se espalha pelo tecido nervoso, infiltrando-se entre neurônios e deixando pequenas ramificações invisíveis à cirurgia. Mesmo depois de remover todo o tecido aparente, células remanescentes costumam provocar recidivas. Por isso, depois da intervenção cirúrgica, o padrão de tratamento inclui radioterapia e o uso de temozolomida, um fármaco que, desde 2005, se tornou pilar devido a um grande estudo clínico que comprovou sua eficácia inicial.

A temozolomida age danificando o DNA das células tumorais, borrando regiões essenciais do “manual de instruções” para a multiplicação. Entretanto, muitas dessas células produzem a proteína MGMT, que corrige essas lesões e confere resistência ao medicamento. Além disso, o glioblastoma apresenta grande heterogeneidade: dentro dele, há populações celulares com características de células-tronco, capazes de se autorrenovar e de repovoar o tumor mesmo após tratamentos agressivos. Essa diversidade é uma das razões pelas quais o câncer retorna e motiva a exploração de combinações terapêuticas.

A melatonina, sintetizada pelo cérebro ao anoitecer, coordena o ritmo do sono, mas também regula inflamação, defesas imunológicas e o metabolismo energético celular. Ela atua como antioxidante em tecidos saudáveis e, no caso de algumas células tumorais, induz estresse metabólico e morte celular. Em linhagens de glioblastoma derivadas de pacientes, observou-se que a melatonina interrompe a produção de energia e altera vias de sinalização, enquanto outros estudos sugerem que ela influencia a interação entre o tumor e o sistema imune.

A proposta de unir temozolomida e melatonina mostra resultados promissores em culturas celulares. Em 2025, pesquisadores demonstraram que a combinação supera a soma dos efeitos isolados, suprimindo mecanismos de defesa do tumor e estimulando processos de autodestruição. Em testes com camundongos, a melatonina retardou o crescimento de tumores implantados sob a pele, embora a barreira hematoencefálica do cérebro ainda represente um desafio para alcançar concentrações semelhantes na massa tumoral cerebral.

Outro estudo realizado em 2018 revelou que a melatonina aumenta a sensibilidade de células-tronco tumorais à temozolomida, embora a magnitude do efeito varie entre diferentes modelos experimentais. Além disso, em roedores sem tumor, a melatonina preveniu sinais de depressão e protegeu a formação de novos neurônios em tratamento com temozolomida, mas não evitou comportamentos ansiosos.

Apesar das expectativas, há três motivos para não recorrer ainda à melatonina em tratamento oncológico: as doses usadas em laboratório são muito maiores do que as fisiológicas, há escassez de ensaios clínicos modernos — o principal, de 1996, envolveu apenas 30 pacientes antes do uso da temozolomida — e qualquer aditivo ao protocolo padrão pode ter efeitos imprevistos. Pacientes devem sempre consultar sua equipe médica antes de incluir qualquer substância.

O próximo passo é realizar ensaios clínicos que definam doses seguras, verifiquem a penetração do hormônio no tumor e comparem regimes de quimioterapia com e sem melatonina. É fundamental avaliar não apenas a sobrevida, mas também a qualidade de vida, incluindo memória e humor. Como a melatonina é barata e sem patente, o financiamento público e a pesquisa independente serão cruciais para validar esse potencial adjuvante.