
Amapá ganha relevância nas rotas de exportação de cocaína para a Europa, segundo relatório sobre o avanço do crime organizado na Amazônia. (Foto: Instagram)
Desde a década de 1980, produtores de cocaína escoam drogas pela Amazônia brasileira. A região passou a conectar a produção de Colômbia, Peru e Bolívia a rotas internacionais, e Manaus foi um dos destinos iniciais desse fluxo. Nos últimos anos, porém, mudanças na fiscalização e a expansão do crime organizado alteraram os caminhos usados para levar a droga ao exterior.
O Amapá assumiu papel relevante nesse cenário. Um relatório do Observatório de Economias Ilícitas na Bacia Amazônica, da Iniciativa Global Contra o Crime Organizado Transnacional (GI-TOC), publicado em setembro, aponta que a expansão do crime organizado na região contribuiu para redirecionar a rota de exportação de cocaína para a Europa.
“A Amazônia virou essa grande porta de entrada do Comando Vermelho para outros países. A história do avanço do crime organizado na Amazônia nesses últimos 15 anos é muito influenciada por esse aumento da demanda por cocaína no mercado europeu”, afirma Gabriel Funari, diretor do Observatório de Economias Ilícitas na Bacia Amazônica.
De acordo com o estudo, o reforço da fiscalização nos portos de Belém levou grupos criminosos a procurar alternativas para exportar a droga. Com isso, Macapá e Santana, na foz do Amazonas, ganharam importância logística. O porto internacional de Santana, na região metropolitana de Macapá, e o intenso tráfego de navios na foz tornam a área atrativa para inserir cocaína em grandes embarcações e contêineres, explica Funari.
O enfrentamento do tráfico também depende de cooperação entre países, com compartilhamento de informações de inteligência e operações conjuntas. Embora existam iniciativas regionais apoiadas pela União Europeia (UE), especialistas dizem que a colaboração ainda é limitada no trabalho operacional cotidiano. Funari relata que promotores, procuradores e policiais apontam dificuldades para manter essa cooperação na prática.
Na fronteira entre o Amapá e a Guiana Francesa, um acordo entre Brasil e França pode servir de referência para ampliar a atuação conjunta. A parceria prevê troca de dados e operações coordenadas, sobretudo contra o garimpo ilegal. Segundo Funari, policiais franceses e brasileiros já realizam ações simultâneas nos dois lados do rio Oiapoque, modelo que também poderia ser aplicado no combate ao tráfico de cocaína.
Enquanto a droga abastece mercados internacionais, os efeitos da expansão do crime organizado recaem sobre as comunidades amazônicas. Funari afirma que os lucros e as vantagens do mercado não ficam na região, mas a violência e a consolidação de grupos criminosos localmente permanecem. Para ele, esses impactos são moldados pelas dinâmicas do mercado de cocaína.






