‘França em chamas’: de Hitler a Trump, líderes recorrem à imigração para explicar crises e violência social

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Agentes do ICE patrulham fronteira enquanto Trump reforça discurso anti-imigração (Foto: Instagram)

Donald Trump reacendeu neste domingo (18) a retórica que associa a crise na França à chegada de imigrantes, ao afirmar em sua rede Truth Social que o país foi “destruído” por pessoas de “um mundo completamente diferente” que “carregam ódio no coração”. Ao responsabilizar estrangeiros pelos distúrbios sociais, o ex-presidente norte-americano recorreu a um artifício político usado por nacionalistas e autoritários ao longo de quase dois séculos: apontar imigrantes e minorias como bodes expiatórios em momentos de tensão.

Esse discurso, que reduz problemas complexos a uma explicação simples, surgiu com força no século XIX, quando a consolidação dos Estados-nação europeus promoveu uma divisão rígida entre “nós” e “eles”. Em crises econômicas, mudanças sociais ou instabilidade política, acusar o estrangeiro tornou-se um atalho para transmitir insegurança e angústia a um público ansioso por respostas rápidas. Desemprego elevado, inflação e sensação de perda de identidade frequentemente pavimentavam o terreno para essa narrativa.

Na Alemanha entreguerras, por exemplo, a derrota na Primeira Guerra Mundial, a hiperinflação dos anos 1920 e o desemprego em massa abriram caminho para Adolf Hitler. O líder nazista explorou o ressentimento popular, responsabilizando grupos “estrangeiros” — sobretudo os judeus — pela decadência econômica e moral do país. Na Itália, Benito Mussolini seguiu rota parecida, promovendo uma identidade nacional homogênea e demonizando influências externas para consolidar o poder e justificar medidas autoritárias.

Com o trauma dos regimes fascistas, a retórica direta entre imigração e colapso nacional perdeu força na Europa Ocidental após 1945. Ainda assim, nas décadas de 1970 e 1980, partidos de direita renovaram o discurso usando linguagens de segurança, identidade cultural e competição por recursos públicos. Jean-Marie Le Pen, fundador da Frente Nacional na França, foi um dos principais vetores desse movimento, ligando migrantes a desemprego, criminalidade e à erosão dos valores tradicionais franceses.

A partir daí, outras lideranças europeias aderiram à fórmula. Na Áustria, Jörg Haider ganhou projeção acusando estrangeiros de pressionar o sistema previdenciário. Nos Países Baixos, Geert Wilders denunciou “islamização” e atentados culturais. Mais recentemente, Matteo Salvini, na Itália, e Viktor Orbán, na Hungria, transformaram o controle migratório em pilar de suas campanhas, argumentando que a sobrevivência da nação depende do fechamento das fronteiras.

Nos Estados Unidos, Donald Trump elevou a imigração ilegal a tema central de sua carreira política desde 2015, vinculando-a a crimes, tráfico de drogas e perda de empregos. A mensagem divulgada neste domingo sobre a França apenas revisitou essa estratégia, concluindo com o mesmo apelo: “Fechem suas fronteiras e retomem o controle, antes que seja tarde demais!” Nesse modelo, o medo cultural e a narrativa de segurança funcionam como ferramenta para mobilizar eleitores e simplificar debates complexos.