
Alunos e professores bloqueiam a entrada do Lycée Saint-Exupéry em Créteil para exigir mais recursos e melhores condições de ensino (Foto: Instagram)
Uma nova onda de manifestações promovidas pela juventude vem ganhando força mundo afora, ancorada em pautas antifascistas e em reivindicações sociais. Na França, protestos estudantis contra a precariedade do sistema educacional irradiaram-se por todo o país, contando com a adesão de sindicatos e de grupos da esquerda radical, mesmo diante de forte reação policial. Esse movimento global reacende a noção de que a rua voltou a ser o epicentro do debate político internacional.
O estopim dessa mobilização se deu em meados de setembro, no liceu Saint-Exupéry de Créteil, na periferia de Paris. Professores haviam feito um protesto por melhores condições de trabalho e mais recursos. No dia seguinte, cerca de 200 alunos bloquearam a entrada em solidariedade. A circulação das imagens nas redes sociais fez com que outras instituições de ensino se manifestassem, dando início a uma expansão rápida e espontânea por diferentes regiões do país.
Em poucos dias, o foco original – sobre salas lotadas, prédios deteriorados e desigualdades no acesso à educação – ampliou-se com novas demandas. Universitários, professores e militantes de diversos movimentos passaram a reconhecer suas próprias lutas nessa articulação horizontal, conhecida na França como “convergência de lutas”. A crise da escola pública, a falta de perspectivas e a margem social unificaram grupos variados em torno de um mesmo objetivo: pressionar por mudanças estruturais.
Do lado governamental e de parte da grande mídia, a reação tem sido marcada por um olhar condescendente, apelidado de mépris francês, como se jovens não tivessem clareza sobre suas razões. Ao mesmo tempo, as cenas de repressão com uso de balas de borracha, granadas e detenções em massa ganharam repercussão. A pergunta que fica é: caso essas imagens viessem de um país tido como autoritário, como seriam interpretadas pela imprensa internacional?
Um dos protagonistas desse episódio é o prefeito de Saint-Denis, Bally Bagayoko, filiado ao partido França Insubmissa, que viralizou ao interpor-se entre policiais e manifestantes para protegê-los. Sua postura reforça a hipótese de que a crise estudantil pode beneficiar a esquerda radical, que enxerga na juventude descontenta uma chance de crescer politicamente a sete meses das eleições presidenciais.
A França, porém, não está isolada. Na Espanha, estudantes e jovens saem às ruas contra a crise habitacional e o aumento do custo de vida. No Brasil, grandes atos expressam indignação diante de figuras políticas como Flávio Bolsonaro e do avanço de pautas de extrema direita. Embora distintos em origem e reivindicações, esses movimentos convergem ao mostrar como o protesto popular voltou a exercer papel decisivo na cena política. A experiência dos coletes amarelos já ensinou que pequenos focos de insatisfação podem ganhar dimensão nacional — e que ninguém domina por completo o curso de uma revolta. A esperança, muitas vezes, nasce do inesperado.






