
José Maurino de Carvalho (Matota) e Maria Nilza Pessoa (Marata) seguram a bíblia usada para justificar o ritual; à direita, o enterro de algumas das crianças vítimas do crime em Salvador. (Foto: Instagram)
Na noite de 30 de abril de 1977, a Bahia viveu um dos episódios mais macabros de sua história criminal quando integrantes de uma seita afogaram oito crianças na praia de Stella Maris, em Salvador. O rito foi conduzido por José Maurino de Carvalho e Maria Nilza Pessoa, conhecidos entre os seguidores como Matota e Marata, à frente do grupo Universal Assembleia dos Santos.
++ Gretchen se revolta após crítica de médico e rebate: “Só quem me para é Deus”
As vítimas tinham entre 7 meses e 8 anos e eram filhas ou parentes de membros da seita. Levaram as crianças, uma a uma, ao mar e as mantiveram submersas até que se afogassem, diante dos demais fiéis que acreditavam participar de um sacramento sagrado.
++ Ratinho se pronuncia após processo movido por Chico Buarque
O casal se conheceu em 1975, numa igreja evangélica de Feira de Santana. Ele, vendedor ambulante em Salvador; ela, moradora de Barra, no município de Mundo Novo. Após Maurino afirmar ter recebido uma visão de Jesus Cristo, adotaram os pseudônimos Matota e Marata e fundaram sua própria comunidade, pregando um “novo evangelho” e estabelecendo batismos e reorganização de casamentos entre seguidores.
No começo de 1977, os fiéis venderam bens para arrecadar cerca de 18 mil cruzeiros e se mudaram para as dunas da Lagoa do Abaeté, em Salvador, que chamavam de “Monte das Oliveiras”. Cerca de 21 pessoas acamparam ali por quase 45 dias, em condições precárias, até a fatídica madrugada em que, por volta das 22h, conduziram o grupo até a faixa de areia para iniciar o sacrifício.
Na manhã de 1º de maio de 1977, uma catadora encontrou o primeiro corpo de criança na praia de Ipitanga. Outros cadáveres foram descobertos ao longo da orla por pescadores, revelando a extensão da tragédia. A polícia foi prontamente acionada, e o caso ganhou repercussão nacional, chocando a opinião pública brasileira.
Pelas denúncias de ex-integrantes, as autoridades localizaram a seita nas dunas de Itapuã poucos dias após o crime. Durante os interrogatórios, os seguidores afirmaram ter obedecido a Matota e Marata, que prometiam proteção divina. Os líderes e vários participantes foram encaminhados ao manicômio judiciário da Bahia, onde permaneceram internados por avaliação psiquiátrica até meados de 1985, quando deixaram a instituição. O episódio permanece como um dos casos mais perturbadores de manipulação religiosa e fanatismo já registrados no país.

